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segunda-feira, dezembro 03, 2012

IANSÃ

                                                                                                                                       *por Thiago Sá
 
Iansã e Santa Bárbara
 
É a Orixá da tempestade, dos ventos, do raio e do fogo.

Iansã usa amarelo ouro em suas velas, roupas e objetos. Gosta de palma amarela ou qualquer flor vistosa que brilhe como ouro.

Suas ervas são o manjericão, folha de bambu, alecrim, alfazema e folha de uva além da espada de Santa Bárbara.

Iansã é inseparável de Xangô, considerada por ele sua esposa predileta. Justamente ele, dono do trovão que vem junto com o vento, a tempestade e os raios de Iansã. Ela também compartilha do fogo com Xangô.

Iansã é guerreira de temperamento enérgico, tempestuoso e viril.

Gosta de comer melão, manga, lagostim, camarão fresco e seco, acarajé, pirão, xinxim de galinha e quiabo. Bebe champagne ou vinho branco doce.

Oferenda de feijão fradino e frango para Iansã
Costuma-se fazer à Iansã pedidos de graças merecedoras independente da origem, seja saúde, trabalho ou amor.

Não podemos esquecer que se trata de uma guerreira, portanto age impondo a lei e como mulher de Xangô traz consigo o senso de justiça.

Quando se louva Iansã, não se curva, não somente por não se tratar de uma divindade velha, mas porque na condição de guerreira ela não baixa a guarda em momento algum, mostrando novamente seu temperamento tempestuoso.

Iansã, uma das mais belas Orixás é sincretizada com Santa Bárbara, a virgem dos cabelos louros, que talvez por isso rendeu à Iansã a cor amarela. Santa Bárbara aparece empunhando uma espada novamente comprovando ser uma guerreira. Sua saudação cujo significado é desconhecido é “Epa Hei Iansã!”.

Quando incorporadas suas mensageiras dançam com grande beleza empunhando uma palma amarela, ou então dançam com as mãos semelhantes a leques que Iansã usa para se abanar e espantar o mal com o vento produzido por ele.

Suas cantigas contam que Iansã mora na pedreira, na cachoeira, que sua morada é a terra do ouro, que ela usa um abebê, o leque com o qual se abana e venta todo o mal para longe. Contam ainda que Iansã lutou e venceu várias guerras, que ela não teme nada nem ninguém.

 

Santa Bárbara virgem dos cabelos louros   (bis)

Mora na pedreira, na terra do ouro.   (bis)

 

Santa Bárbara é a dona do fogo, do raio, chuvisco e trovão.  (bis)

Epa Hei Iansã venceu guerra,  (bis)

Epa Hei com a espada na mão.

 

É festejada em 04 de dezembro e seu lugar de oferendas é a cachoeira, onde a água é forte, turbulenta e violenta como Iansã, ou então as pedreiras, casa de Xangô.
 

Arquétipo de seus filhos

 O arquétipo de Iansã é o das pessoas audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem ser fieis e de lealdade absoluta em certas circunstâncias, mas que, em outros momentos, quando contrariadas em seus projetos e empreendimentos, deixam-se levar a manifestações da mais extrema cólera. (Verger)*

 
Fator: direcionador

No positivo: são envolventes, risonhas, alegres, amorosas, mas sem pieguice (ridiculamente sentimental), possessivas com os seus, amigas e companheiras, leais, mulheres atiradas que tomam iniciativas ousadas, expeditas (desembaraçadas), ativas, ágeis no pensar e falar, são lideres natas.

No negativas: são emotivas, e se não se impõem, revoltam-se e abandonam quem não se se submetem a elas e logo estão estabelecendo novas ligações, em que se imporão.

Apreciam: festas, pessoas falantes e alegres, ambientes enfeitados e coloridos, viagens a passeio, homens envolventes, trabalhos agitados.

Não apreciam: homens introvertidos, reuniões monótonas, amizades egoístas, ambientes conservadores, trabalhos ou deveres monótonos, comidas pesadas, roupas pesadas, (a prisão) da vida domestica, a repetição das mesmas coisas no seu dia-a-dia.

Obs.: estatura média e compleição curvilínea bem delineada, tendendo para o sensualismo. 

 

 * Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.

 

segunda-feira, abril 23, 2012

Ogum


Orixá Ogum, Orixá da lei, da guerra, do ferro e dos caminhos.
Usa vermelho e branco, armado de espada, que usa nas guerras justas e ditadoras da ordem.
Suas ervas são a espada e lança de São Jorge, manga, pitanga, abre caminho, jurubeba e guiné. Sua flor é o cravo vermelho ou branco.
Ogum come peixe assado, feijoada, cará e milho, e bebe cerveja branca.
É sincretizado com São Jorge, santo católico cuja história conta ter sido um soldado que morreu nos campos de batalha assim como o Orixá que lutou em muitas guerras. Ogum assim como São Jorge traz uma espada, sua arma de guerra como símbolo de coragem o que o caracteriza como guerreiro.
Sua saudação, “Ogum nhê”, significa: “Ogum sobreviveu forte” relembrando mais uma vez que ele é o Orixá da guerra. Também se fala “Patakori Ogum”, que significa: “Importante, supremo, Orixá Ogum em nossa cabeça”.
Ogum é o Orixá da lei, pois respeita e exige respeito por tudo que é correto e direito, não admite trapaças ou atitudes que visam prejudicar o próximo.
É o Orixá do ferro, pois com ele desenvolveu as ferramentas e as armas, é também associado à agricultura e a tecnologia.
Ogum é o dono dos caminhos junto com Orixá Exu, seu irmão companheiro. Cuida das estradas que levam cada um ao seu destino, seja estrada material ou espiritual.
À Ogum são feitas oferendas que pedem abertura de caminhos, proteção, fechamento de corpo... Suas cantigas contam que ele vence demandas, derruba mandingueiro, ganha batalhas onde quer que sejam que protege e luta por seus filhos e é tido pelos outros Orixás como o soldado leal que a todos ajuda.

Eu tenho sete espadas pra me defender (bis)
Eu tenho Ogum na minha companhia (bis)
Se Ogum é meu Pai, Ogum é meu guia,
Se Ogum vem salvar,
            Venha com Deus e a Virgem Maria.

Ogum também é considerado na Umbanda como o Pai de todos os seres humanos independente do Orixá de cabeça, pois ele atua em todos os planos e lugares defendendo todos os filhos de Deus.
Ogum zela pela lei, e quando ela é descumprida, Ogum põe em prática as penas por tê-la descumprido.
Suas giras são movimentadas, os Caboclos de Ogum, espíritos que incorporam e trabalham na irradiação do Orixá costumam dançar e emitir pequenos sons que não são palavras, e também brados. Salvo em necessidades extremas um Caboclo de Ogum não fala quando incorporado. Podem portar espadas de metal, espadas de São Jorge ou ainda a lança de São Jorge, que são empunhadas com muita braveza e postura. Também pode ocorrer, mas com raridade um Caboclo fumar ou beber.
É o único Orixá cujo seus mensageiros possuem nomes próprios: Ogum Iara, Beira-mar, Naruê, Sete Ondas, Sete Espadas, Rompe-mato, Megê e etc. 
No Brasil, Ogum é festejado em 23 de abril e a ele rendem-se grandes festas e também procissões. É um dos Orixás de maior culto no país.


Arquétipo de seus Filhos

O arquétipo de Ogum é o das pessoas violentas, briguentas e impulsivas, incapazes de perdoar as ofensas de que foram vitimas. Das pessoas que perseguem energicamente seus objetivos e não se desencorajam facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro teria abandonado o combate e perdido toda a esperança. Das que possuem humor mutável, passando de furiosos acessos de raiva ao mais tranqüilo dos comportamentos. Finalmente, é o arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por certa falta de discrição quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e franqueza de suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas. (Verger)*

Fator: Ordenador.
No positivo: são leais, vigorosos no amparo dos seus afins, protetores, ciumentos dos seus, não abandonam seus amigos à própria sorte e dão a vida para salvar alguém.
No negativo: são irredutíveis e tentam impor-se a todo custo.
Apreciam: Viagens, competições, esportes violentos, discussões acaloradas, comidas e bebidas fortes e mulheres que se apaixonam por eles.
Não apreciam: A monotonia, o sedentarismo, as musicas suaves ou melancólicas, os trabalhos que devem ficar incomunicáveis ou presos a um mesmo lugar.


 * Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.
Por Thiago Sá

terça-feira, março 06, 2012

Sacramentos de Umbanda: Iniciação

Saída de Santo:

A iniciação de um Sacerdote umbandista, popularmente conhecida como “Saída de Santo”, "Saída de Camarinha" ou “Deitar pro Santo” é um período de retiro dedicado ao Orixá, um período de melhoramento, renascimento e resguardo.
Existem diferentes requisitos para que um médium seja escolhido para passar pelo processo de iniciação. E esses requisitos podem mudar de casa para casa. Após sete anos de trabalho espiritual o filho está apto a ser inicado, as vezes por determinação dos Orixás a iniciação pode ocorrer antes disso.  
O filho é recolhido num espaço especialmente reservado para tal. O processo resulta em um total desligamento do mundo, essa ação é fundamental para o médium se conhecer melhor e vivenciar todo o aprendizado que o Orixá lhe transmite.
Nessa fase que, pode durar até 9 dias, tudo que o filho faz é regido pelo Orixá. As comidas são feitas com os ingredientes de cada Orixá. Assim como os banhos, que são preparados seguindo regras e rituais do Orixá. No grande dia, da saída da camarinha, tudo tem de ser preparado no dia.

Em alguns terreiros, existe uma regra. Se quem está sendo iniciado é uma filha, só a Mãe de Santo/Sacerdotisa ou outra mulher preparada para tal pode adentrar no quarto sagrado. Se o recolhido for um filho, só o Pai de Santo/Sacerdote ou alguém preparado pode adentrar no quarto sagrado e somente para entregar os banhos, refeições e para ter certeza de que tudo está correto. Essa “regra” é importante para manter o respeito pelo médium e pelo Orixá. Diferente da iniciação no Candomblé, na Umbanda não é prática se raspar a cabeça dos iniciados.
Em alguns casos é permitido para o filho que irá ser recolhido levar algumas coisas que o ajudarão na concentração e aprendizado durante o período de reclusão tal como livros sobre a religião. E claro, produtos básicos de higiene pessoal e medicamentos de uso contínuo. É comum que durante esse período os filhos dediquem tempo para fazer fios de contas e outros trabalhos manuais que involvam o Orixá em questão.
Espiritualmente a iniciação de um médium como sacerdote simboliza o renascimento, uma união com o que há de mais sagrado, uma comunhão entre o homem e o Orixá, do momento que o médium deixa a reclusão ele se torna um Sacerdote e ele se compromete a seguir as leis de Umbanda, os sacramentos, a ter postura e carácter exemplares e ser aquele que passará os ensinamentos dos Orixás, Guias e Entidades à diante.
            

Não se tem como descrever em palavras o que se sente. É tudo tão sublime, tão único que não encontro palavras. É morrer e nascer para uma nova vida, uma nova fase de descobertas. Algo que posso falar e comprar o sentimento que senti, é quando somos mães e sentimos o nossos filhos no braço.” – Bianca, iniciada em 2012


"Dias de devoção ao Orixá, dias de reflexão e aprendizado, dias de evolução espiritual, dias de infinita crença e amor à Sagrada Umbanda. Não se define um sentimento: alegria, fé, amor, comunhão, separação, medo... Mas no fim, tudo é superado por sentimentos maiores de amparo e proteção." - Rita, iniciada em 2009


"O sentimento de comunhão entre você e o Orixá é incrível. Nada se assemelha àqueles dias passados ali. Os dias são longos e curtos ao mesmo tempo. Você se sente protegido e acompanhado pelos Guias o tempo todo. É como se uma nova vida estivesse sendo preparada e tudo começa do zero. O sentimento de benção é imenso." - Thiago, iniciado em 2005

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Umbanda de Outras Bandas

Realmente não é preciso ter tudo exatamente como no Brasil para se poder seguir com a Umbanda.
Com o tempo a gente aprende o caminho das pedras e consegue achar muitas das coisas que fazem nossa caminhada mais fácil como velas maiores e de cores mais adequadas.
Foi Preto Velho que disse que teríamos de começar do começo e que nos preparássemos para trabalhar espiritualmente, em casa mesmo, pois nós tínhamos nossas missões para serem cumpridas aqui na Terra.
Foi assim que Eli e eu começamos nossa jornada de maneira oficial, numa noite de folga, sofás e mesas afastadas pro canto da sala, algumas velas acesas num prato branco pra proteger o carpete, um copo com água e um defumador espiritual. A gente rezou, cantou e me arrisco a dizer que trabalhamos com o povo da esquerda ( Exu sempre o primeiro) se minha memória não falha.
Foi assim quase toda semana durante o inverno, período em que tínhamos mais tempo livre, alternando as linhas de trabalho. Eu falando sobre os Orixás e as Linhas de Umbanda para a Eli e minhas Entidades desenvolvendo-a como médium.
Um período de aprendizado imenso para ela e para mim também, começando a dar os primeiros passos como um dirigente espiritual.
Foi desse jeito que eu pude matar a saudade dos Guias e dos Orixás que sempre me acompanharam e que não puderam trabalhar na minha matéria por longos meses, no carpete da sala, sem muito barulho e com a bateria do detector de fumaça removida, para evitar maiores transtornos.
Saravá a Umbanda.
Thiago Sá

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Iemanjá

É conhecida como a Rainha do Mar, e é o mar a sua morada. Ela é dona do oceano e tudo que vem dele, é a Orixá da vida e da fecundidade.
Iemanjá é a Mãe da humanidade, e das coroas de todos os seres humanos independente da Mãe de cabeça de cada um.
Usa o azul claro em suas velas, roupas e objetos.
As ervas de Iemanjá são alfazema, guiné, avenca e erva de Santa Luzia. 
A ela são servidos pratos de peixe, frutas, manjar, mel, milho branco, creme de arroz, tudo enfeitado com  crisântemos brancos, jasmins e outras flores brancas em geral.
Iemanjá é conhecida pela sua natureza maternal, dedicada, calma e amorosa, gosta de que as coisas sejam feitas da melhor maneira possível que é quase sempre a sua maneira.
Suas cantigas cantam que Iemanjá é a rainha do mar, que é a sereia dos cabelos longos que canta na beira da praia, que mora nas ondas do mar.

Mãe d’água rainha sereia das ondas do mar,
Mãe d’água seu canto é bonito quando vem do mar.
Iê Iemanjá, Iê Iemanjá,
rainha das ondas sereia do mar.   (bis)
Como é lindo o canto de Iemanjá, faz até o pescador chorar,
quem escuta a Mãe d’água cantar, vai com ela pro fundo do mar, Iemanjá
vai com ela pro fundo do mar.

Sua associação à sereia é totalmente latina, pois a sereia é uma lenda ou personagem criada nas Américas como uma moradora do mar, assim Iemanjá também é a sereia, símbolo da beleza e da sedução. Iemanjá é ligada a várias personagens da cultura brasileira, além da sereia também é chamada de Janaína, outra moradora do mar.
Ela recebe pedidos de saúde, abertura de caminhos e principalmente misericórdia, pedidos que são feitos como súplicas, para sanar aflições da vida. Somente Iemanjá para resolver pedidos feitos principalmente por mães sofredoras. Ela é o símbolo da família, da união matriarcal, do lar.
Nas suas giras incorporam suas mensageiras ou Caboclas que podem se apresentar nas formas de sereias, deitadas ou sentadas ao chão, das leves e jovens que dançam e possuem grande beleza ou ainda das dignas e benevolentes mensageiras velhas que lentamente caminham carregando toda a força da mãe da humanidade. Como todas as Orixás, Iemanjá traz nas mãos flores que ela abençoa, suas mãos fazem o  movimento das ondas do mar que possuem a força de Iemanjá, podem também emitir pequenos sons semelhantes ao choro ou um canto. Acredita-se que quando se ganha uma flor de um Orixá incorporado, esta flor traz muita boa sorte e fluidos benéficos, portanto sendo um presente muito importante e também difícil de receber.
Quando se louva Iemanjá curva-se em respeito pela sua condição de mãe do mundo, geradora dos seres humanos.
Costuma-se saúda-la com “Adociá”, ou “Odo Iya” que significa “Mãe do rio”, mas não que se considere Iemanjá como oriunda do rio, mas o rio representando o início de tudo, já que é a água doce que gera a vida. Já o significado de seu nome, resolve toda a confusão. Iemanjá significa “Mãe cujos filhos são peixes”.
É comemorada no dia 08 de dezembro, pois é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição e festejada em grande festa no litoral de São Paulo e do Brasil onde milhares de devotos festejam-na nas ondas do mar.

Iemanjá é a Orixá mais popular do país, inclusive dentre todos os Orixás no Brasil. É dona de uma imensidão de casas de norte a sul.

Arquétipo de seus Filhos

Os filhos de Iemanjá são voluntariosos, fortes, rigorosos, protetores, altivos e, algumas vezes, impetuosos e arrogantes; tem o sentido da hierarquia, fazem-se respeitar e são justos, mas formais; põem a prova às amizades que lhes são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e sérios. Sem possuir a vaidade de Oxum, gostam do luxo das fazendas azuis e vistosas, das jóias caras. Tem tendências a vida suntuosa mesmo se as possibilidades do cotidiano não lhes permitem tal fausto.

Fator: gerador
Positivo: são alegres, leais, fiéis generosas, trabalhadoras, muito diligentes em tudo o que fazem e são muito ativas.
Negativo: são respondonas, irritantes, intolerantes, briguentas e despeitosas.
Apreciam: a vida doméstica o trabalho produtivo, o respeito, a fidelidade, a religiosidade firme, o estudo, vestes sóbrias e elegantes, companhia de homens firmes nas decisões e natureza forte.
Obs.: típicas matronas, robustas, vigorosas, impulsivas e autoritárias.


* Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Quotidiano Umbandista - Meu Problema é o Seguinte



Em vários terreiros a hora do passe vai começar, e o sofrimento das entidades também.
A assistência está cheia, muito bom para a casa, mostra que é bem conceituada. Mas seus filhos, incorporados com as entidades, sofrem com os pedidos e problemas das pessoas.
Clientes que só querem tomar um passe e agradecer a proteção são cada vez mais raros.
O que prolifera são os clientes que contam sempre os mesmo problemas, que não são dois ou três e sim cinco, seis... Sempre os mesmo pedidos de milagres sem que ele, o cliente, queira fazer algo por si mesmo, e acabam jogando tudo nas mãos das pobres entidades.
Clientes mercadores, que pedem ajuda e já oferecem pagamento, fazendo a consulta parecer comércio de troca de favores. "Você me traz um emprego e eu lhe dou isso ou aquilo."
Ou então pessoas que mesmo com humildade, pedem saúde, paz, emprego, marido, proteção. Para ela, a família, o pessoa do serviço, o bairro todo.
E nisso as entidades lá, ouvindo e ouvindo as mesmas coisas, sai cliente entra cliente. Sempre com uma resposta que pode ser muito útil, que toca a pessoa e a faz ver o caminho a ser seguido, ou aquele que não satisfaz a pessoa, que na verdade queria ouvir que está tudo bem, que tudo vai dar certo e que o mundo é lindo e é todo seu.
Mais fácil seria dizer que tudo de ruim na vida é fruto de um "espirito" montado nas suas costas.
Está cada vez mais difícil se fazer caridade, pura e simples. Passe virou sessão do descarrego e aconselhamentos espiritual virou momento da libertação.
Dentro de cada um está a vontade de buscar saídas e palavras de conforto, mas também dentro de cada um está a força que faz com que a saída seja encontrada.
O papel dos terreiros é este mesmo, as entidades estão lá para isso, para ouvir problemas e mostrar à pessoa que ela pode ser capaz de superar tudo, pois foi o tempo que receitar banho solucionava tudo.
Meu Axé a Todos.
Salve a Umbanda
Thiago Sá


Jornal "Tambor" - Dezembro/2002


O Jornal Tambor foi uma das publicações direcionadas à religiões afro-descendentes mais importantes no início dos anos 2000. Criado e idealizado pela Yalorixá Sandra Epega o jornal sempre pregou pelo diálogo inter-religioso, cultura de paz e sempre deu espaço para todos as tradições religiosas.
Nosso irmão e colaborador do blog, Thiago Sá foi colunista do jornal por quase três anos e sua coluna, Quotidiano Umbandista descrevia situações corriqueiras ao dia a dia dos templos umbandistas. Sempre descritas como ficção.
O blog Aldeia do Sultão acha pertinente trazer de volta alguns do textos publicados ao invés de deixa-los guardados num arquivo de computador ou numa gaveta.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Oxum

Oxum é a Orixá da beleza, do amor, da fertilidade, da riqueza e das águas doces.
É a vaidade em forma de Orixá, muito bela, Oxum traz na mão um espelho onde aprecia sua beleza. Sua morada é o rio, riacho, cachoeira e lagoa, onde a água doce se faz presente.
Gosta do azul escuro em suas velas, roupas e objetos, o lírio branco, jasmim ou qualquer outra flor delicada e bonita como a orquídea lhe agrada. Suas ervas são o alecrim, a alfazema, a erva-cidreira, o girassol, a hortelã e a folha da fortuna.
Oxum gosta de uva, mel, melão, manga, figo, comidas que levam camarão seco, feijão fradinho, cará, pato e peixe, e bebe champagne, vinho branco doce e guaraná.
Oxum é a dona da fertilidade, ela é quem permite que o óvulo seja fecundado. É a dona das águas doces onde se dá a vida, a água que mata a sede.
Oxum recebe pedidos de prosperidade, amor, gravidez, riqueza e felicidade, além de proteger as crianças.
Tem um temperamento amoroso e carinhoso, mas pode se tornar intransigente, perigosa e vingativa, tem a passionalidade dentro de si. Não tem muitos meio termos, aliás sobre o mesmo assunto pode ter pensamentos ora favoráveis ora contrários. Sem tornar-se volúvel, apenas vê ângulos diferentes sobre o acontecimento.
Mas sua natureza amável acaba prevalecendo e faz dela símbolo do amor, assim como conta suas cantigas, que Oxum é um tesouro, que ela é a dona do ouro, da beleza, que ela protege seus filhos contra tudo.

Sob o clarão da lua, a água da cascata parece de prata.   (bis)
É de um lindo véu, é da Oxum, a minha Mãe que vem do céu.
Aiêiê mamãe Oxum, dona do ouro,
Aiêiê mamãe Oxum é o meu tesouro.

Oxum é sincretizada com Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, sinônimo de amor e compreensão para seus fiéis católicos. É festejada em 12 de outubro, feriado nacional. Talvez aí esteja a resposta para a cor de Oxum ser o azul escuro, cor do manto de Nossa Senhora.


Quando nós louvamos Oxum nos curvamos em respeito à tão grande mãe que é, e também por Oxum várias vezes se apresentar como mulher de idade avançada, curvada. Nas suas giras podemos encontrar suas mensageiras jovens, eretas e dançantes ou as carinhosas mães idosas e lentas. Oxum traz nas mãos flores ou então as movimenta como ondas que trazem pra si as energias e devolvem luz, podem emitir pequenos cantos que lembram choramingos ou mesmo chorar, é uma característica da mais dengosa das Orixás.
Oxum é saudada com “Ora yeyê Oxum” que significa: “Chamemos a benevolência da Mãe Oxum”, mas uma prova da bondade da Mãe da fertilidade.

Arquétipo de seus Filhos

O arquétipo de Oxum é o de pessoas graciosas e elegantes, com paixão por jóias, perfumes e vestimentas caras. Das mulheres que são símbolo de charme e beleza. Voluptuosas e sensuais, porem mais reservadas que Iansã. Eles evitam chocar a opinião pública, à qual dão grande importância. Sob sua aparência graciosa e sedutora esconde uma vontade muito forte e um grande desejo de ascensão social. (Verger)*

Fator: agregador ou conceptivo
No positivo: são amorosas, delicadas, meigas, sensíveis, perceptíveis, perfeccionistas, cuidadosas, amáveis, protetoras e maternais.
No negativo: são ciumentas, agressivas, vaidosas, insuportáveis, vingativas, não esquecem uma ofensa e não perdoam uma magoa.
Apreciam: festas familiares, danças, recitais românticos, poesia, medicina, crianças, lecionar e conselheiras.
Não apreciam: solidão, homens autoritários ou agressivos, reuniões monótonas, estudo das ciências exatas, políticas, lugares tristes, homens ciumentos e mulheres egoístas.
Obs.: possuem compleição delicada.

* Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.
Thiago Sá

quarta-feira, setembro 28, 2011

Cosme e Damião

A linha de Cosme e Damião representa as entidades infantis. A pureza, alegria, ingenuidade, carinho, sinceridade e a vibração de tudo que está ligado às crianças.
Reúne espíritos de crianças até mais ou menos os 12 anos, das mais distintas origens, pode-se encontrar Entidades de origem oriental, africana, européia e brasileira no caso de curumins, índios crianças. 
As cores predominantes são o cor de rosa, o branco e o azul claro, mas as crianças gostam de todas as cores.
O símbolo desta linha é o jardim florido, lugar onde eles se encontram para brincar e espalhar sua energia benéfica para os seres que ali lhe fazem oferendas. Estas compostas de doces e guloseimas dos mais variados tipos, predominando a cocada como um dos mais tradicionais. A comida característica é o caruru, famoso prato a base de quiabos que é distribuído em suas festas.
O dia em que se comemora Cosme e Damião é 27 de setembro, dia em que em todo o Brasil as pessoas rendem homenagens aos Santos crianças aos Ibeji, nome da divindade africana representada por gêmeos.
Aqui no Brasil o culto de Ibeji está limitado a poucas casas de tradição africana, pois desde o inicio seu culto foi superado pelo dos gêmeos católicos que segunda a história seriam jovens estudantes de medicina que ajudavam os necessitados.
Na Umbanda as festas de Cosme e Damião são mais do que tradicionais, os templos são enfeitados com balões coloridos, bandeirinhas e fitas, tudo muito semelhante a festas infantis, são preparadas cestas com doces, frutas, preferencialmente as pequenas, como uva, morango, pêssego, jabuticaba, maça e também refrigerante, geralmente guaraná, sucos de frutas, leite e água com açúcar, e bolos confeitados. Tudo é distribuído para as crianças presentes. Comum também é a distribuição de sacolinhas de doces e brinquedos para crianças pobres por empresários e pessoas que alcançaram graças de Cosme e Damião, estas nem sempre religiosas de Umbanda.
Essa é uma prova de mais um culto afro-brasileiro que transpôs os templos, assim como a festa de Iemanjá que ocupa as praias de diversas cidades no litoral brasileiro reunindo adeptos ou não da Umbanda, a festa de Cosme e Damião é livre de preconceito, sendo a fé e a caridade os principais intuitos.
Quando incorporados as Entidades se portam de acordo com sua idade, alguns apresentando a inquietação das crianças mais levadas e outras mais quietas e até mesmo choronas, as giras são muito alegres e movimentadas, os cosminhos ou erês nomes genéricos dados as Entidades, brincam com bonecas, carrinhos, bolas e outros brinquedos que possam ter. Também podem ter vestimentas próprias, como aventais ou vestidos no caso das meninas e macacões, calças curtas e até mesmo pijamas para os meninos, usam também chapéus, tocas, chiquinhas e fitas nos cabelos.
Os nomes dessas Entidades geralmente são no diminutivo, para demonstrar aos outros que se tratam de crianças. Mariazinha, Pedrinho, Joãozinho, Miguelzinho, Aninha, Lucinha. Nomes próprios que não necessariamente eram os de uso dessas Entidades quando em vida na Terra.
As cantigas cantam sobre a pureza e felicidade que eles carregam, sobre as coisas de criança e sobre os locais de sua morada.

Papai me solte um balão
Pra todas as crianças que vem lá do céu (bis)
Tem doce papai
Tem doce papai
Tem doce lá no jardim (bis)

Fui ao jardim colher as rosas
A vovozinha deu-me as rosas mais formosas (bis)
Cosme e Damião, ô Doum
Crispim e Crispiniano
São os filhos de Ogum (bis)

A linha de Cosme e Damião é regida por Orixá Ogum, considerado pai de todos os filhos de Umbanda que representa a figura paterna e Orixá Iemanjá mãe de todos os seres humanos e a figura materna. Mas cada Entidade pode trazer consigo características de outros Orixás com o qual este mantém ligação, como Iansã, Oxosse, Oxalá e etc. 

quinta-feira, agosto 11, 2011

Exu

          Orixá Exu é o senhor do destino, dos caminhos e da sexualidade. Ele é o mensageiro dos Orixás.
          Exu é o dono das encruzilhadas, seu pólo de força e sua morada, ao lado de Ogum ele rege os caminhos do mundo, sejam materiais, ruas, estradas e trilhas, ou espirituais.
          É o dono da sexualidade humana, é ele o dono do desejo sexual que propicia o ato que resultará na perpetuação da espécie.
          O jogo de búzios, oráculo adivinhatório dos Orixás e, por conseguinte as conchas usadas no jogo são de Exu, ele é quem permite essa comunicação. Exu, na maioria das vezes é quem responde as perguntas feitas através dos búzios, e quando outro Orixá responde é sob a permissão do dono do destino. Na verdade, Exu é o mensageiro dos Orixás, ele leva a pergunta ao Orixá em questão e traz a resposta de volta na forma da caída dos búzios.
Exu usa as cores preta e vermelha em suas velas, objetos e roupas, mas aceita também a cor branca.
          Exu come galo, farofas de carne, dendê, mel, bode, pipoca, pimenta e miúdos. Gosta de beber pinga ou bebidas alcoólicas em geral e água.
          Suas ervas são: bagaço de cana, aroeira, pimenta, arrebenta cavalo, urtiga e hortelã pimenta, suas flores são o cravo vermelho ou flores vermelhas de diversos tipos.
          Exu está ligado a forças das mais negativas, ele trabalha diretamente com Orixás de ligação as almas e a morte, como Omolu / Obaluaiê e Nanã Buruquê, ele transita por todos os lugares do mundo sem precisar pedir licença, ele poderia ser chamado de o “gari” das energias negativas, e é isso que ele faz, anda em todos os planos limpando os recintos de fluídos pesados, espíritos zombeteiros, e desmanchando trabalhos de má finalidade.
Devido a isso, Exu foi e é encarado como Orixá negativo, de finalidades ruins e maléficas, quando na realidade é ele quem combate esse tipo de realizações.
          Não é conhecido um sincretismo de Exu, infelizmente ele acabou sendo comparado com a imagem do Diabo cristão e até hoje essa figura lhe é associada. Fala-se que o santo católico mais próximo de Orixá Exu seria Santo Antonio, mas não há nenhuma certeza quanto a isso. Por não ter sincretismo Exu não tem data comemorativa, porém lhe são rendidas oferendas e festas normalmente no mês de agosto, mês conhecido por guardar energias pesadas.
          Assim como Orixá Oxosse, Exu, na Umbanda, tornou-se chefe de uma linha de Entidades, a linha chamada da Esquerda. Que reuniria espíritos de vida carnal desregrada, ilícita e vergonhosa. Na verdade, os espíritos que compõem essa linha da Esquerda são espíritos que estão no principio da evolução espiritual, dessa forma, eles estão trabalhando ligados às energias pesadas e negativas do Orixá. Abordarei a linha da Esquerda mais adiante.
          As cantigas de Exu normalmente trazem nomes de seus mensageiros e quando isso não acontece entende-se que a cantiga fala de todos os Exus em geral.

Toma lá Exu, toma lá o que é seu.
Vai no meio da rua, vai buscar o que é teu.



Exu da meia noite, Exu da madrugada. 
Oi salve o povo da encruza,
Sem Exu, não se faz nada.

         Portanto devido a várias idéias perdidas e desencontradas Exu, no papel de Orixá quase não existe dentro da Umbanda, o que existe são os espíritos de sua linha que também atendem pelo nome do Orixá.
          A Exu faz-se pedidos de descarrego, fechamento de corpo e principalmente prosperidade amorosa, sexual e financeira. Exu é a resposta para todos os males, sejam eles da origem que forem, é essa a sua imagem, o de curador de todos os males.
          Não existe registro de giras de Orixá Exu na Umbanda, somente as de seus mensageiros. O símbolo de Exu é o tridente de ferro com três pontas, chamado popularmente de garfo. Ele representa a força de Exu, que também teria relação com o ferro e o usa como arma para proteger a todos.
          Ele é o Orixá mais contraditório de todos, a sua personalidade é de atrevido, contestador e provocador. Ele é a divindade que mais se aproxima do caráter humano, por transitar livremente pelos dois mundos, carnal e espiritual, Exu tem uma ligação muito grande com os seres humanos, tem sentimentos que não são atribuídos aos outros Orixás, como inveja e luxúria. Exu exige que ele seja o primeiro Orixá a ser lembrado sempre que algo será feito, ele pede agrados, presentes e oferendas não mais que os outros Orixás, mas sempre ele deve ser o primeiro. Quando Exu está feliz, tudo o que se pede ele prontamente se dispõe a fazer.
          É quase uma lenda falar de templos de Umbanda que não cultuam Exu, ele está sempre presente nas entradas de todos os templos em grandes casas erguidas a ele ou em pequenas quartas de barro, é sempre muito prestigiado com grandiosas festas e oferendas de muita beleza. Quando se louva Exu, saúda-o com “Laroyê Exu”, ou “Mojubá Exu” cujos significados são próximos de “Eu me curvo perante Exu” e “Salve a força de Exu”.

            Arquétipo de seus filhos

O arquétipo de Exu é muito comum em nossa sociedade, onde proliferam pessoas com caráter ambivalente, ao mesmo tempo boas e más, porém com inclinação para a maldade, o desatino, a obscenidade, a depravação e a corrupção. Pessoas que têm a arte de inspirar confiança e dela abusar, mas que apresentam, em contrapartida, a faculdade de inteligente compreensão dos problemas dos outros e de dar ponderados conselhos, com tanto mais zelo quanto maior recompensa esperada. As cogitações intelectuais enganadoras e as intrigas políticas lhes convém particularmente e são, para eles, garantias de sucesso na vida. (Verger)*

* Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.
Por  Thiago Sá

sábado, agosto 06, 2011

Umbanda de Outras Bandas

Quando desembarquei na Nova Zelândia em dezembro de 2006 eu trazia na bagagem além de meus pertences e um coração cheio de expectativas eu trazia uma vida inteira dedicada à Umbanda. Eram quase dez anos como médium e dois anos de iniciação como Sacerdote ou Pai de Santo.
Sempre faço piadas dizendo que minha bagagem teve excesso de peso pois eu trouxe todos os Orixás e Entidades comigo.
Fui recebido por minha grande amiga Elisangela que foi a razão de eu escolher vir para um lugar tão longe de tudo e que mais tarde seria minha primeira filha de santo.
Logo de cara a gente se pergunta como vai se virar morando numa terra onde niguém sabe o que é Oríxá, Caboclo e Exu, muito menos Umbanda.
Acredito que minhas Entidades e os Orixás me acompanharam nessa jornada assim como acompanharam seus filhos africanos que cruzaram o Atlântico rumo à América e escolheram aceitar um culto diferente do original pois o mais importante é a fé que sentimos e não o local onde cultuamos.
Como Pai de Santo aprendi e me preparei pra me virar bem morando longe do templo e sem o convívio de minha Mãe de Santo, trouxe comigo meus búzios, umas duas guias e uns dois panos de cabeça, estava seguro, pensei.
Diferente de outros brasileiros umbandistas que moram em Portugal, EUA e Japão onde podem encontrar praticamente tudo oque encontramos no Brasil e assim praticar a Umbanda do mesmo jeito que constumavam, eu me deparei com as dificuldades mais primárias.
Vela comum? Não tem. Charuto? Não tem. Defumador? Não tem. Pemba? Não tem. E as sábias palavras de minha mãe cantavam no meu ouvido: "Meu filho, as Entidades entendem e aceitam aquilo que você puder oferecer."
Pois bem, as velas são as pequeninas que se usa de decoração e numa variedade de cores bem primárias, o charuto é cigarrilha ou cigarro comum, o defumador virou incenso e a pemba é giz.
Se não fosse pelas caixas super recheadas de artigos religiosos que chegaríam pelo correiro vindas do Brasil acho que Caboclo ainda ia estar fumando cigarrilha, obrigado Padrinho!
Lembro-me da primeira incorporação, Exu como sempre o primeiro veio discretamente entre as árvores de um parque gramado em frente ao lago da cidadezinha que morava com a vista das montanhas ainda com neve no topo. Ficou por alguns minutos, conversou com Eli e foi embora me deixando a sensação de que muita coisa ainda estava por vir.
Na quaresma no mesmo lugar Preto Velho veio, sentou na grama coitado, nao tínhamos um toco pro velho bancar. Veio para o fechamento de corpo da sexta-feira Santa, cruzou seu cavalo e sua filha e me mostrou que ali começava a jornada. Eu, uma filha de santo e uma terra completamente estrangeira para desbravar.
Acredito que vim pra cá por uma razão. Quem sabe não seja a de "levar ao mundo inteiro a bandeira de Oxalá".
Saravá a Umbanda!
Thiago Sá

quarta-feira, julho 27, 2011

Nanã Buruquê


Nanã Buruku, Nanã Buruquê ou simplesmente Nanã, é a Orixá feminina mais velha de todas.
Nanã usa as cores lilás, roxo e violeta em suas roupas, velas e objetos.
Suas comidas são, feijão branco ou fradinho, batata doce roxa, peixe, milho branco e arroz. Nanã bebe água, champagne ou vinho branco.
Alfavaca, assa-peixe, alfazema, quaresmeira, maria preta e palha da costa são suas ervas.
Nanã é a Orixá dos mortos, sua morada é o mangue, o brejo, o alagado todos os lugares onde a água e a terra se tornam um só, pois o barro seria o princípio da humanidade.
Sua saudação: “Saluba Nanã Buruquê”, significa: “Nos refugiamos com Nanã da morte ruim”. Mas ela não tem aspecto negativo, apenas se utiliza energias ligadas às almas, portanto mais densas e pesadas.
Nanã é sincretizada com Santa Ana ou Nossa Senhora de Santana, é personificada como a avó, protetora de crianças e educadores. No dia 26 de julho rendem-se festas em sua homenagem.


Nossa Senhora de Santana

Nas suas giras costumam incorporar suas mensageiras ou Caboclas, espíritos que trabalham com ligação direta à sua energia. Quando incorporada Nanã normalmente permanece curvada, pode emitir pequenos sons, sejam de choro ou algo parecido com um canto, dificilmente dançam, e quando isso ocorre acredita-se que é devido a grande satisfação e alegria da divindade. Nanã pode ter nas mãos flores que lhe são dadas, estas são abençoadas e devolvidas para que permaneçam no Congá até que murchem.
Seus pontos cantados costumam falar de sua ligação com Omolu também Orixá dos mortos, e de sua calma e paciência para resolver as coisas.

São flores Nanã, são flores,
são flores Nanã Buruquê.
São flores Nanã são flores,
de seu filho Obaluaiê.
Nas horas de agonia
ele sempre vem me valer,
É seu filho Nanã, é meu Pai
É ele Obaluaiê

Sua louvação é feita por todos curvados, respeitando sua velhice e conhecimento. A Nanã deve-se muito respeito e cuidado pois é um dos Orixás de culto mais complexo e trabalhoso, seu temperamento é ríspido e exigente, devendo-se sempre tomar cuidado com brincadeiras ou pouco caso, atitudes nada aprovadas por Nanã.
O culto de Nanã não é tão popular como o de Ogum ou Iemanjá, mas Nanã está presente em praticamente todas as casas, ao menos recebendo louvações.


Arquétipo de seus Filhos

Nanã Buruquê é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolência, dignidade e gentileza. Das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos e que julgam ter a eternidade a sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam de crianças e educam-nas, talvez, com excesso de doçura e mansidão, pois tem tendência a se comportarem com a indulgência das avós. Agem com segurança e majestade. Suas reações bem-equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nas sempre no caminho da sabedoria e da justiça. *

Fator: decantador.
No positivo: são calmas, conselheiras, orientadoras, religiosas, emotivas, muito simpáticas.
No negativo: são intratáveis, ríspidas, tagarelas, fuxiqueiras, vingativas, perigosas.
Apreciam: a boa mesa, companhias falantes e alegres, reuniões familiares e religiosas, pessoas que lhe dediquem afeto e respeito, vestes coloridas.
Não apreciam: pessoas egoístas, mesquinhas ou geniosas, festas ou reuniões agitadas, crianças peraltas, roupas espalhafatosas, desperdício e pessoas preguiçosas e exibicionistas.

* Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.
Por Thiago Sá

quinta-feira, junho 23, 2011

Xangô

Xangô usa a cor marrom em suas velas, roupas e objetos que também podem ter a cor amarela, cor de Iansã sua esposa ou ainda o vermelho.
Xangô bebe vinho tinto e cerveja preta. Suas comidas são a rabada, o carneiro, quiabo, acarajé, peixe de couro, camarão seco e fresco, pirão de peixe além de pimenta.
As ervas de Xangô são o manjericão, alecrim, quebra pedra, inhame, abacate e hortelã. Suas flores, palmas vermelhas e cravos brancos.
Xangô teria tido três esposas; as Orixás Oxum, Iansã e Obá, esta ultima cultuada somente no Candomblé.
Xangô usa um machado duplo chamado Oxê. Ele é o Orixá do fogo, do trovão e principalmente da justiça.
Está sempre na companhia de Iansã, sua esposa predileta, justamente a Orixá do raio e da tempestade.
Xangô tem a pedreira como sua morada, ele é o dono das pedras, tão duras quanto sua justiça. A Xangô são feitos pedidos de justiça, jurídica ou moral, mas sempre é salientado que Xangô só ajuda aqueles que são merecedores, pois seu senso de justiça é tão grande que sua ira ataca mesmo aquele que lhe pediu ajuda caso Xangô considere que o pedido feito seja para benefício próprio.
O leão que acompanha Xangô serve para mostrar que Xangô é um líder tão forte, destemido e respeitado quanto o leão no reino animal.
É chamado o Rei da Umbanda, até porque ele é o único Orixá que segundo histórias africanas foi Rei, e por isso usa coroa.
Xangô é velho, suas cantigas contam que morreu com a idade. Por isso nos curvamos para louvá-lo, por respeito a um Orixá de idade avançada. Talvez Xangô não seja tão velho como pensamos, mas a sabedoria está ligada à idade por isso sua representação seja do velho de cabelos brancos sentado numa pedra.

Xangô morreu na maior idade,
Morreu escrevendo em uma pedra.  (bis)
Ele escreveu a justiça,
quem deve paga quem merece recebe.  (bis)

Suas cantigas também contam que ele era muito leal e companheiro, e que escreveu um livro, o livro da Justiça. Coincidentemente, Xangô é sincretizado com São Jerônimo que na Teologia Católica foi quem traduziu a bíblia. O dia de São Jerônimo é 24 de junho.

Xangô é filho de aurora é,
Xangô é filhos de aurora.
Xangô era bom pai, bom filho e bom irmão,
Você brinca com Nagô mas com Xangô não brinca não.

Nas giras de Xangô, incorporamos espíritos que trabalham diretamente na energia e vibração de Orixá Xangô, que chamamos de mensageiros ou de Caboclos de Xangô. Eles podem se apresentar prostrados, levemente curvados ou eretos de acordo com a idade que o espírito apresenta. Podem também trazer nas mãos pequenas pedras que costumam bater uma contra a outra emitindo sons ou apenas como símbolos de sua força. Não é comum, mas um Caboclo de Xangô pode fumar quando incorporado ou ainda beber. Alguns permanecem calados, outros emitem sons ou brados. É possível que um mensageiro de Xangô jovem e robusto dance, mas é raro.
A saudação “Caô Cabieci” ou “Caô Cabiecilê” significam “Venham ver o Rei descer sobre a Terra” ou então “Salve o grande Rei”. Xangô é, ao lado de Ogum, Oxosse e Iemanjá um dos Orixás de mais fervoroso culto no Brasil, tendo milhares de casas dedicadas a ele.


Arquétipo de seus Filhos

O arquétipo de Xangô é aquele  das pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e conscientes de sua importância real e suposta. Das pessoas que podem ser grandes senhores, cortese, mas que não toleram a menor contradição, e, nesses  casos, deixam-se possuir por crises de cólera, violentas e incontroláveis. Das pessoas sensíveis ao charme do sexo oposto e que se conduzem contato e encanto do decurso das reuniões sociais, mas que podem perder o controle e ultrapassar o limite da decência. Enfim, o arquétipo de Xangô é aquele das pessoas possuem um elevado sentido da sua própria dignidade e das suas obrigações, o que as leva a se comportarem com um misto de severidade e de benevolência, segundo o humor do momento, mas sabendo guardar, geralmente, um profundo e constante sentimento de justiça. (Verger)*

Fator: equilibrador
No positivo: são passivos, racionais, meditativos e observadores, atentos, mas pouco falantes e geniais.
Negativo: são reclusos, calados, rancorosos, implacáveis em seus juízos, intratáveis.
Apreciam: a leitura, a musica, os discursos, a boa companhia, e a companhia de mulheres vivazes (vigorosas, vivas, ligeiras), aconchego do lar e a boa mesa, gostam de se vestir bem, mas com sobriedade.
Não apreciam: festas arrivistas, reuniões emotivas, companhias desequilibradas ou mulheres monótonas, apáticas, os egoístas e os soberbos.
Obs.: estatura baixa ou media, de compleição robusta ou atarracada.

* Trecho retirado do livro “Orixás” de Pierre Verger, 1996.


terça-feira, junho 07, 2011

Ciganos


A mais recente linha a se desenvolver na Umbanda, vem aumentando seus adeptos a cada ano, a linha de Cigano é uma junção de espíritos das mais variadas origens. Muito pouco material de consulta existe para conhecê-la, porém, vamos tentar explica-la aos poucos.
A história do povo cigano é conhecida popularmente pela dos povos nômades que viajavam pelo mundo em caravanas sem moradia fixa nem fronteiras. Pois isso já é uma grande idéia de que tipo de espíritos habitam esta linha.
A história da linha de cigano é muito nova dentro do culto de Umbanda, sendo ainda desconhecida para a grande maioria das casas. Aquelas que já a desenvolvem o começaram a pouco, sendo no geral iniciadas pelas próprias Entidades que assim pediram.
Algumas dessas Entidades habitaram outras linhas antes de comporem a linha de Cigano. Muitas Pombagiras que trabalhavam na gira de Exu e eram conhecidas como Pombagiras Ciganas e Baianas que também se diziam ciganas puderam passar para uma linha mais de acordo com suas heranças cármicas e espirituais. Nota-se também a presença de Ciganos na gira de Exu, estes, também puderam se juntar a uma outra legião de Entidades que nunca haviam incorporado para juntos desenvolverem mais uma linha de trabalho do panteão.

Sim, existem Entidades de origem cigana que justamente por herança cármica espiritual se firmaram em uma determinada linha de trabalho e nesta permanecerão enquanto durarem sua missão.
Não há regra quando o assunto são os Ciganos, são Entidades muito alegres, festeiras e de bem com a vida. Gostam de festa, animação, boas comidas e bebidas, aliás, costumam beber vinhos, licores, destilados, macerações de frutas com bebidas, como o ponche e a sangria, champagnes e inclusive água. Suas comidas mostram muito da herança cultural que compõem sua vida, comem carnes de caça, aves principalmente, afinal de contas não haviam locais para rebanho, pois viajavam constantemente, comem das mais variadas frutas, inclusive secas e mel. Costumam fumar cigarrilhas, cigarros comuns, alguns aromatizados com canela e cravo e até mesmo charutos.
Vestem-se com roupas coloridas, predominando as cores vermelha, que significa vida e espanta o mau olhado, o dourado que significa prosperidade e o estampado que representa a união com a natureza.
Suas danças são característica de cada povo cigano, já que existem vários, Kalons (espanhóis), húngaros, russos, iugoslavos e provenientes do oriente. Usam lenços, pandeiros, fitas coloridas e movimentam-se com graça e sensualidade.
Os Ciganos são muito conhecidos pelos seus oráculos adivinhatórios, não só a cartomancia e a quiromancia (leitura das mãos), mais uma dezena de outros oráculos, como a bola de cristal, teimancia (leitura através da borra do chá), cafeomancia (leitura através da borra do café), dadomancia (oráculo dos dados), hidromancia (leitura através da água em um copo), entre outros.
O uso das ervas é muito grande dentro da cultura cigana, e essas Entidades tem sempre uma receita, encantamento ou simpatia para receitar, usam muitas flores, frutas, folhas em geral e muitos incensos.
Atendem a pedidos de prosperidade, trabalho, amor, abertura de caminho, proteção espiritual e saúde. Suas cantigas, ainda escassas, falam da vontade deste povo de trabalhar, sua felicidade, o contato com a natureza e suas andanças pelo mundo.

“Dizem que Cigano não trabalha,
Errou, errou, errou,
Cigano não tem dia e não tem hora
Pra prestar a caridade
Ele faz a qualquer hora” (bis)


“Cigana, cigana linda
Onde mora, onde você está?
Estou, lá na estrada,
Na minha tenda esperando me chamar” (bis)

Os nomes já conhecidos dessas Entidades são Igor, Carmencita, Ramiro, Sarita, Ivan, Maria Luzia, Thiago e tantos outros.
Por mais que o culto da linha de Cigano ainda esteja se desenvolvendo na Umbanda, ele tem tudo para crescer e dar muitos frutos. Mais uma vez, a Umbanda prova ser a religião que surgiu para receber os mais variados espíritos, todos dispostos a prestar a caridade e ajudar as pessoas aqui na Terra.


Por Thiago Sá