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quarta-feira, janeiro 28, 2015

CABOCLOS - Parte 01

                                                                                                             por Débora Caparica


A marca mais característica da Umbanda, religião surgida no final do século XIX e início do século XX é a manifestação de entidades, por meio da mediunidade de incorporação. Os primeiros espíritos a “baixar” nos terreiros de Umbanda foram os caboclos e pretos velhos, a seguir surgiram outras formas de apresentação como as crianças, conhecidas como erês. Essas três formas, crianças, caboclos e pretos velhos, são consideradas as principais, representando as três fases da vida – a criança, o adulto e o velho – mostrando a dialética da existência. Além disso, trazem valores arquetipais de pureza e alegria na criança, simplicidade e fortaleza no caboclo e a sabedoria e humildade dos pretos velhos, mostrando o caminho para a evolução espiritual.
Com a expansão da Umbanda, muitas outras entidades apareceram, como os baianos, boiadeiros entre outros, sem falar dos Exus. A Umbanda cresceu porque soube levar em seu círculo de sabedorias ensinamentos de outras religiões. Assim a Umbanda se acresceu de pontos cantados, orações, defumações, etc. Essa diversidade confirma a abrangência desse movimento espiritual que chama a todos e recebe seres encarnados e desencarnados, com vibrações de fraternidade e amizade sob a luz de Oxalá. Em nosso trabalho trataremos mais especificamente, das entidades conhecidas como Caboclos, invariavelmente presentes nos terreiros de Umbanda, praticando a caridade e cumprindo sua missão espiritual. A influência dos caboclos dentro da Umbanda é tão grande, que talvez não existisse Umbanda sem eles. Que todos os caboclos nos iluminem e nos guie rumo à paz maior.
Os Caboclos
A palavra caboclo vem do tupi kareuóka, que significa da cor de cobre, acobreado. Podendo também designar o mestiço de branco com índio ou mulato, tem na Umbanda significado diferente, são espíritos que se apresentam como índios. Muitos que hoje se apresentam nos terreiros foram pajés, velhos curandeiros ou magos, tanto que são utilizados em trabalhos de cura através de ervas, demandas espirituais, pois foram hábeis guerreiros. Acresce ainda, que sob a forma fluídica de um índio, se esconde muitas vezes um padre, um missionário, um pacificador indígena, um bandeirante ou um médico, cujas primeiras existências humanas, foram como silvícolas. Dada essa relação dos caboclos com os indígenas, e aproximando esse fato ao Orixá Oxossi, que na África é cultuado como Odé, o caçador, o Senhor das Florestas, conhecedor dos segredos das matas e dos animais que lá vivem. Os caboclos são entidades fortes e viris, com uma postura forte, de voz vibrante, que trazem as forças da natureza, manipulando essas energias para trabalhar nas questões de saúde, vitalidade e no corte de correntes espirituais negativas alguns tem dificuldade de se expressar em nossa língua, são sérios, mas gostam de festas e fartura, dançam muito e gostam de cantar.
Relação com os Orixás
Primeiramente o que é Orixá? O planeta em que vivemos e todos os mundos dos planos materiais se mantêm vivos através do equilíbrio entre as energias da natureza. A harmonia só é possível devido a um intrincado e imenso jogo energético entre os elementos químicos que constituem estes mundos e entre cada um dos seres vivos que habitam estes planetas. Um dado característico do exercício da religião de Umbanda é o uso, como fonte de trabalho, destas energias. Vivendo no planeta terra, o homem convive com leis desde sua origem e evolução, leis que mantém a vitalidade, a criação e a transformação, dados essenciais à vida como a vemos desenvolver-se a cada segundo. Sem essa harmonia energética o planeta entraria no caos. O fogo, o ar, a terra, e a água são os elementos primordiais que combinados, dão origem a tudo que nossos corpos físicos sentem, assim como também são constituintes destes corpos. Acreditamos que esses elementos e suas ramificações são comandados e trabalhados por Entidades Espirituais que vão desde os elementais até aos espíritos superiores que inspecionam, comandam e fornecem o fluido vital para o trabalho constante de criar, manter e transformar a dinâmica evolutiva da vida no planeta terra. A essas energias de alta força vibratória chamamos Orixás, usando um vocábulo de origem Yorubana. Na Umbanda são tidos como maiores responsáveis pelo equilíbrio da natureza. Os caboclos, profundos conhecedores das forças da natureza estão ligados aos Orixás através dessas energias das quais fazem uso para os trabalhos. Para quem vivencia o terreiro, que há anos luta as batalhas espirituais e já viu os caboclos vencendo as demandas, afastando entidades negativas, tratando doenças que a medicina muitas vezes não resolve e dando lições de simplicidade, humildade, coragem e persistência, traz uma sensação de alegria que enche o coração, renova o ânimo e nos dá a certeza de que estamos no caminho certo. É também do linguajar de caboclo, que não cai uma folha da jurema (da mata), sem ordem de Oxalá, ou seja, que tudo na vida tem motivo e que nossas ações são registradas na lei de causa-e-efeito, ou lei do karma. Mas isso não significa ficar passivo, esperando o pior acontecer. Os Caboclos também ensinam a termos coragem e a sermos guerreiros na vida, lutando pelo que é justo e bom para todos. No que é possível, os caboclos nos ajudam a entrar na macaia (a mata que simboliza a vida), a cortar os cipós do caminho (vencer as dificuldades) e, se preciso caçar os bichos do mato (vencer as interferências espirituais negativas). Essa postura é evidenciada em vários pontos. Na Umbanda a linha de Caboclo e a linha de Preto Velho, são as únicas fundamentalmente capacitadas, diante seu grau de evolução, a apresentar-se como mentores de um médium, ou seja, são as únicas entidades que podem responder diretamente ao (Orixá de Cabeça) de um médium, sem desequilibrar a vida disciplinar dele. Os caboclos estão ligados a um determinado Orixá, respondendo diretamente a ele, a não ser em casos especiais, onde se precise de um reajuste cármico, assim passando-se a agir uma entidade, que tem um cruzamento vibratório, como por exemplo, um Ogum Rompe Mato, que pode atuar por Oxossi se for preciso. Assim, se na ancestralidade de um caboclo está o elemento fogo, quem o rege é Xangô; e se está o elemento mineral, quem o rege é Oxum, etc. E sua linha de trabalhos espirituais atuará no campo do Orixá que está dando amparo divino à atuação dos espíritos que se apresentam com o seu nome simbólico.

domingo, agosto 10, 2014

Aprendendo Sempre - Os Cambones

Cambone é uma atividade exercida nos terreiros de Umbanda e que merece uma atenção especial dada a sua importância como auxiliar das entidades, dos médiuns e dos dirigentes do Terreiro.
Como auxiliar das entidades, cabe ao cambone ser o interprete da mensagem entre a entidade e o consulente, além de um defensor da entidade e da integridade física do médium. Cabe a ele cuidar do material da entidade, orientar o que acontece em sua volta e também ajudar o entendimento do consulente, pois a linguagem do espírito nem sempre é entendida, mas ao cambone fica claro já pela sua intimidade com o comportamento do espírito que ele serve.
Por outro lado a posição do cambone nem sempre é confortável pois algumas vezes cabe a ele fiscalizar também o comportamento da entidade que, se por uma razão ou outra, fugir da normalidade deve imediatamente avisar a direção do terreiro. O limite da intimidade do consulente com o espírito ou o médium deve ser fiscalizado pelo cambone para evitar mal entendidos e desajustes de informações. Finalmente ao cambone é dada uma oportunidade especial de conhecer mais a Umbanda e a forma das entidades trabalharem porque seu contato é direto. Como o cambone tem como obrigação ouvir o que o espírito ouve e fala, seu conhecimento, em cada consulta, aumenta consideravelmente.
Quando eu comecei na Umbanda fiz questão de ser cambone e desempenhei esse papel durante muito tempo e posso afirmar que até hoje ele tem uma importancia direta no meu comportamento como médium e Pai de Santo.
Apenas como informação a quem quiser, estamos divulgando um aviso aos cambones do Terreiro do Pai Maneco elaborado pela Mirtes Rodrigues, responsável como assistente dos cambones na gira que dirijo.

Funções

  • Servir a entidade e ao médium
  • Colaborar material e espiritualmente com o médium e com a entidade, antes, durante e depois do trabalho.
  • Orientar o consulente quando não entende, banhos, entregas, novas consultas, vibrações e o que for necessário.
  • Prestar muita atenção na consulta, para não ser infringida nenhuma regra ou regulamento da casa, e notando alguma anormalidade deve ser comunicado a chefe de cambono ou à hierarquia e, conforme o caso, o pai-de-santo.
  • Deve apresentar honestidade e sigilo absoluto, não devendo nunca contar a ninguém o teor das consultas.
  • Não pode incorporar quando está atendendo a uma entidade, exceto quando autorizado pela entidade a quem estiver servindo.

Antes e durante os trabalhos:

  • Levar todo material da entidade para seu respectivo lugar no terreiro (pemba, velas, ponteiros, bebida, fósforo, tabua, charutos, palheiros, cigarros, ervas, e eventuais outros materiais)
  • Servir a  entidade em tudo que ela precisar.
  • Não deixar de ouvir, mesmo que por solicitação do consulente, as consultas feitas às entidades e as respostas por elas dadas. Em caso de determinação da entidade para se afastar durante uma consulta, avisar imediatamente o pai-de-santo ou a entidade que nele estiver incorporada.
  • Durante a vibração, ficar atento à entidade e ao trabalho que ela realiza, sem contudo ser necessário ficar ao lado da entidade, a não ser que a mesma solicite.
  • Autorizado o atendimento, enquanto risca o ponto e firma seu trabalho, fornecendo-lhe os materiais necessários.
  • Conversar com a entidade quanto ao numero de consultas e o tempo disponível, sendo que ele não pode dizer para ao consulente.

Após os atendimentos:

  • Conversar com a entidade, pedindo orientações quanto ao destino das sobras de material utilizado.
  • Levantar o ponto riscado da seguinte forma: retirar ponteiros, velas e outros materiais do ponto, e jogar cachaça sobre o ponto riscado, em forma de cruz, e com as mãos, apagar o ponto riscado. Depois pode retirar do local e limpar na torneira da pia com água.
  • Guardar e recolher o material, deixando o local limpo.

Orientações gerais:

  • Ao se locomover pelo ambiente do ritual não furar nem costurar a corrente, evitando bater nos médiuns.
  • Ao afastar-se da função, seja por um período ou não, auxiliar o novo cambono, passando orientações a respeito do trabalho com as entidades.
  • Não aproveitar-se da função para fazer consultas em nome de parentes, amigos, sobrecarregando o trabalho das entidades.
  • Não manter diálogo com  assistência.
  • Qualquer dificuldade em orientar os consulentes, pedir auxilio a hierarquia
  • Não atrapalhar o encerramento dos trabalhos levantando o ponto ou guardando os materiais.
  • Durante a abertura e encerramento dos trabalhos, todos devem estar na corrente.

Cambones:

  • Servir também é um aprendizado.
  • O trabalho do cambone  é tão importante quanto ao do médium e entidade.
  • A responsabilidade mediúnica do cambone é tão importante quanto a de qualquer outro médium.
  • O médium que camboneia, não atrapalha seu desenvolvimento. A experiência como cambono lhe é importantíssima no aprendizado.
  • Orientar a entidade quanto aos cuidados com o médium.
  • Avisar de qualquer situação constrangedora a hierarquia.
  • Levantar o perfil das entidades, visto que quem esta de fora, tem maior percepção e entendimento da entidade.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Quotidiano Umbandista - Umbanda: Ele Veste a Camisa


Se tem uma coisa de que ele se orgulha, é de ser umbandista. Não no sentido da vaidade, mas por fazer parte de uma religião tão bela quanto às outras, tão especial quanto às outras e tão difamada como poucas.

Tem respeito por toda e qualquer doutrina religiosa, mas a Umbanda em todos os sentidos é sua religião durante as 24 horas do dia.

Luta por ela no que for preciso, não obriga ninguém a aceita-la, mas a defende e pede respeito.

Nunca, em todos esses anos pensou em se afastar do convívio dos Guias e Orixás, como se isso fosse possível, já que eles estão conosco desde nosso nascimento.

Sua fé não é incondicional, pois a fé não deve ser cega, sua fé é respeitosa e compreensiva, sabe distinguir desejo de merecimento, favor de caridade.

Em todos esses anos conviveu com as diferentes mentalidades daqueles que buscaram a Umbanda. Um número tão grande de pessoas que vieram em busca de soluções imediatas, de socorro e de ajuda espiritual que conseguiram e nunca mais voltaram. Outros tantos que entraram na Umbanda como quem entra num clube a fim de diversão e não suportaram por muito tempo.

E tantos outros trazidos pelos Orixás que abriram seus corações e hoje são os umbandistas sérios como ele que levam a Umbanda sempre para o caminho da evolução.

Esses são poucos, mas seus trabalhos perduram e mesmo que o plantio seja delicado e demorado, quando começam a dar frutos não param mais. São pessoas que se permitiram ter a vida tocada pela Umbanda e hoje tocam a Umbanda com a própria vida.

            Ele nunca cometeu loucuras pelos Orixás, tem discernimento para entender que Orixá não pede sacrifícios humanos, mas sim disposição e entusiasmo para se conseguir o que lhe foi pedido.

Ele entende que como médium ele não é nada mais do que um instrumento usado pelas Entidades, não consegue se ver como um ser especial dotado de poderes como um super herói. Como poderia ser um fenômeno se existem milhares de médiuns como lê?

Desde o início aceitou sua missão e entendeu que ele, médium, não é nada até que empreste sua consciência e seu corpo a um Guia ou Orixá e aí se torne menos do que o nada, afinal quem passa a agir é a divindade.

Sempre louvou Orixá, reverenciou as Entidades e com o Axé recebido em troca sempre prosperou. Por mais que pensem que prosperar é ganhar muito dinheiro, ter bens materiais, família e futilidades ele teve sempre saúde para viver, força para buscar e felicidade para compartilhar.

E para todos diz: “- Sou feliz, realizado e umbandista.”

Meu Axé a todos. Salve a Umbanda!            


O Jornal Tambor foi uma das publicações direcionadas à religiões afro-descendentes mais importantes no início dos anos 2000. Criado e idealizado pela Yalorixá Sandra Epega o jornal sempre pregou pelo diálogo inter-religioso, cultura de paz e sempre deu espaço para todos as tradições religiosas.
Nosso irmão e colaborador do blog, Thiago Sá foi colunista do jornal por quase três anos e sua coluna, Quotidiano Umbandista descrevia situações corriqueiras ao dia a dia dos templos umbandistas. Sempre descritas como ficção.
O blog Aldeia do Sultão acha pertinente trazer de volta alguns do textos publicados ao invés de deixa-los guardados num arquivo de computador ou numa gaveta.
          

sábado, abril 21, 2012

Quotidiano Umbandista - Longa Caminhada


Como de costume ele foi católico não praticamente, mas contam que foi o que chamam de corredor de gira, mas não de templos para templos, mas sim de religião para religião.
Sempre acreditou em Deus e sempre aceitou o catolicismo de coração mas depois de ir à igreja por muito tempo só em casamentos e missas de sétimo dia, resolveu que era hora de encontrar uma religião que preenchesse seu coração.
Encontrou através de uma amiga o Budismo, soube que Deus também pode ter outros nomes, e lá descobriu que o silêncio é o primeiro passo para o encontro do eu interior. Mas naquela época ele preferia o barulho de um night club a passar horas sentado meditando.
Descobriu que Deus também estava nas bandas de rock gospel da Igreja Renascer e até aprendeu a tocar instrumentos. Estava num lugar onde tudo estava em comunhão. O barulho e a festa que ele gostava com a palavra de auxilio religioso que precisava.
Mas os sermões e os estudos bíblicos eram chatos e o dízimo era alto e ele então desistiu de mais uma religião.
Logo depois, as noitadas já estavam chatas e ficar em casa estava cada vez mais comum, e sem religião ficava mais fácil pensar no profano e no ilícito.
Um amigo do trabalho lhe contou que no Kardecismo também há a presença de Deus e ele fala através de Mentores, sentiu então pela primeira vez paz de espírito e não a paz silenciosa exterior do templo budista. Viu que um trabalho espírita pode trazer cura, conforto e infinitos benefícios. Basta querer.
Como cada um caminha até encontrar sua verdadeira morada, lhe foi mostrado quão belo o mundo espiritual é. Mas que ali em torno daquela mesa de toalha branca ele estaria estacionado, deveria caminhar um pouco mais para aí sim encontrar seu porto seguro.
Os Orixás nos guiam por onde devemos andar, mas as pernas respondem a nossa consciência, mas na hora certa, dia certo e quando ele realmente precisava ele ouviu o som dos atabaques que vinham do fundo da humilde casa.
Curioso, afinal dizem que“macumba” é coisa ruim, mas uns dizem que é religião como outra qualquer e que eles também tem seus Mentores, mas com nomes diferentes ele entrou no pequeno terreiro, mas diante de imensa força achou que fosse um enorme palácio.
Não sabia dizer que gira era, mas lembra de um Guia ter-lhe chamado e sem mais nem menos pediu licença pra botar a mão no couro. Não conhecia a religião, não conhecia o instrumento, nem sabia cantar um ponto sequer, mas quando um dos Ogãns da casa saudou o Baiano chefe do terreiro ele puxou um ponto de louvação que falava da grandeza daquele Baiano, e a Entidade em terra se curvou em agradecimento.
O rapaz terminou o ponto estarrecido e aos prantos. O Baiano lhe chamou, deu-lhe um forte abraço e deu as boas vindas perguntando se estava cansado da caminhada. E que agora ele podia descansar porque ali era sua verdadeira casa.
Meu Axé a todos. Salve a Umbanda!

Jornal "Tambor" - Março/2003


O Jornal Tambor foi uma das publicações direcionadas à religiões afro-descendentes mais importantes no início dos anos 2000. Criado e idealizado pela Yalorixá Sandra Epega o jornal sempre pregou pelo diálogo inter-religioso, cultura de paz e sempre deu espaço para todos as tradições religiosas.
Nosso irmão e colaborador do blog, Thiago Sá foi colunista do jornal por quase três anos e sua coluna, Quotidiano Umbandista descrevia situações corriqueiras ao dia a dia dos templos umbandistas. Sempre descritas como ficção.
O blog Aldeia do Sultão acha pertinente trazer de volta alguns do textos publicados ao invés de deixa-los guardados num arquivo de computador ou numa gaveta.