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segunda-feira, março 30, 2015

A missão de um Sacerdote.

Uma missão espiritual, mediúnica e sacerdotal, na maioria das vezes, é um compromisso assumido antes de encarnar. Uma missão como esta deve ser algo que dê um sentido para sua vida e para sua encarnação. É servir a algo maior que nós mesmos. Ter uma missão é sentir que existe algo muito especial a ser realizado por nós nesta encarnação. Claro, todos nascem com algo para realizar em vida. No entanto, o sacerdote nasce com a missão de conduzir e orientar pessoas.
Muitos se perguntam como saber ou ter certeza que têm mesmo esta missão? É muito simples, podemos começar dizendo que nunca será uma obrigação. Uma missão como esta é algo sentido no coração, é algo que se deseja e quer realizar, sem esperar nada em troca. Uma missão sacerdotal deve ser sempre um virtuosismo e, claro, “a virtude não espera recompensa”.  A missão sacerdotal é uma missão consigo mesmo, com o Astral, seus Guias, Orixás e com a Umbanda.
Mas antes de descobrirmos uma missão sacerdotal, em primeiríssimo lugar, descobrimos aptidão, interesse e inclinação pela espiritualidade para depois nos identificarmos com a mediunidade. Portanto, antes de conhecer e trabalhar sua missão sacerdotal, é preciso conhecer e trabalhar sua missão mediúnica. Estamos falando da Umbanda, uma religião mediúnica em que os sacerdotes são médiuns de incorporação. Apenas depois de alguns anos trabalhando como médium de incorporação desenvolvido o suficiente para dar passe e consulta, é que este umbandista pode assumir uma missão sacerdotal, o que deverá ser determinado e/ou confirmado por seus Guias espirituais. Mas não basta apenas este médium incorporar um Caboclo ou Preto Velho; antes de assumir uma missão sacerdotal, este médium deve incorporar os valores deste Caboclo, do Preto Velho, da Criança, etc.
O médium deve antes ser ele mesmo quem mais recebeu ajuda destes Guias, para então assumir uma missão junto dos mesmos para ajudar a muitos mais.  Sabemos que a missão mediúnica umbandista passa obrigatoriamente pelo fundamento mais básico da religião, muito bem definido por Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas: “a manifestação do espírito para a prática da caridade” e “ensinar a quem sabe menos e aprender com quem sabe mais”.  Mas, não podemos esquecer que cada um dá o que tem, cada um faz o que pode e cada um é o que é. Não se espera melancias num pé de laranjas.  Mas também podemos dizer que Deus capacita os escolhidos e que todos são chamados, escolhidos são os que se dedicam mais.
O que quero dizer é que fazer a caridade é importante, ajudar o próximo é bom, mas antes deve-se ajudar a si mesmo se tornando alguém melhor para si e para o próximo. Precisamos entender o que é a caridade, pois esta mesma caridade tem sido objeto de vaidade, quando muitos acreditam estar comprando um pedaço do céu com a sua “caridade”. A maior caridade que podemos dar e receber é a consciência de nossa vida e da realidade que nos cerca. Costumam alegar que incorporar espíritos para evoluir é caridade, como uma obrigação de trabalhar na Umbanda para evoluir, ou trabalhar com espíritos para que eles possam evoluir. Como se não houvessem outras formas e meios de nós ou os espíritos evoluírem.
Num primeiro momento, pode até parecer uma verdade, que esta é a missão: evoluir. No entanto, com o tempo, passa a ser moeda de troca; estamos barganhando nossa evolução e comprando um pedacinho do céu, ou de Aruanda, por meio de uma obrigação, ou trabalho forçado.
O ponto é que uma missão é algo que você faz sem esperar nada em troca, nem evolução, nem pedaço do céu, nem nada. Missão é algo que fazemos de graça e assim é com nosso Guias também, que trabalham por amor a nós e ao próximo. Mesmo as entidades de menos luz, quando estão trabalhando, é porque receberam algo de bom e querem compartilhar. Na Lei e na luz não se barganha, não se negocia doação ou entrega.
Me lembro de ter ouvido uma história em que um homem muito doente, ao ser tratado por Madre Tereza de Calcutá, lhe disse assim: “Madre, eu não faria este seu trabalho por dinheiro nenhum no mundo!”, ao que ela lhe respondeu: “Eu também não!”. Nenhum dos grandes mestres da humanidade, dos grande missionários, fizeram nada esperando algo em troca.
Por isso, uma missão é sempre um AMOR, algo que é inexplicável para quem não tem, não sentiu ou não viveu.  O sacerdote é quase sempre alguém que sente em seu coração que já recebeu muito da religião, que aprendeu, cresceu, viveu, se levantou e quer de alguma forma retribuir.
Mãe Zilméia de Moraes, filha carnal de Zélio de Moraes, dizia que a única diferença entre ela a os médiuns da corrente era a responsabilidade. O sacerdote é um médium de incorporação com mais responsabilidade, com mais atribuições.  O sacerdote, em sua missão, vai atuar como mestre e orientador e, dentro desta missão, talvez, o mais importante que ele tenha a realizar é ajudar cada um dos seus médiuns a encontrarem seus mestres pessoais. A grande missão deste sacerdote é criar ambiente e condições para que cada médium de incorporação consiga um contato real e verdadeiro com seus Guias espirituais. A missão do mestre pessoal, dos Guias espirituais, é ensinar seu médium a tornar-se mestre de si mesmo, o que quer dizer simplesmente ajudá-lo a aprender com a vida.
Quando chegar neste ponto, o médium não precisa mais de sacerdote, nem de religião. Ele abandona todas as muletas espirituais, deixa de ser um pedinte e então descobre que está na Umbanda por amor e não por necessidade, muito menos por obrigação.
A missão do sacerdote não é brincadeira e não pode ser banalizada ou profanada. Entre outras atribuições, podemos dizer que a missão do sacerdote é conhecer a si mesmo, conhecer melhor o ser humano, ser feliz, se autorrealizar e ajudar a todos em sua volta nestas mesmas questões.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

CABOCLOS - Parte 02



Como, por exemplo: - Linha de Caboclos Sete-Montanhas, regidos por Xangô, - Linha de Caboclos Sete-Espadas, regidos por Ogum e assim por diante.A última religião de um espírito pouco importa, pois na Umbanda ele reverenciará os Orixás aos quais já servia, só que com outro nome. Afinal, Deus é único, o Trono regente do nosso planeta em seu todo também é único. E os quatorze Tronos Planetários Naturais (os nossos Orixás) também são únicos, ainda que sejam cultuados com muitos nomes.Embora existam diferenças entre os nomes encontrados para as entidades, em relação as suas Vibrações Originais, apresentamos a seguir uma relação:

Caboclos de Ogum:
Águia Branca, Águia Dourada, Águia Solitária, Araribóia, Beira-Mar, Caboclo da Mata, Icaraí, Caiçaras Guaraci, Ipojucan, Itapoã, Jaguaré, Rompe-mato, Rompe-nuvem, Sete Matas, Sete Ondas, Tamoio, Tabajara, Tupuruplata, Ubirajara, Rompe-Ferro, Rompe-Aço.
Caboclos de Xangô:
Araúna, Cajá, Caramuru, Cobra Coral, Caboclo do Sol, Girassol, Guaraná, Guará, Goitacaz, Jupará, Jaguar, Rompe-Serra, Sete Caminhos, Sete Cachoeiras, Sete Montanhas, Sete Estrelas, Sete Luas, Tupi, Treme-Terra, Sultão das Matas, Cachoeirinha, Mirim, Urubatão da Guia, Urubatão, Ubiratan, Cholapur.
Caboclos de Oxossi:
Caboclo da Lua, Arruda, Aimoré, Boiadeiro, Ubá, Caçador, Arapuí, Japiassu, Junco Verde, Javari, Mata Virgem, Pena Branca, Pena Dourada, Pena Verde, Pena Azul, Rompe-folha, Rei da Mata, Guarani, Sete Flechas, Flecheiro, Folha Verde, Tupinambá, Tupaíba, Tupiara, Tapuia, Serra Azul, Paraguassu, Sete Encruzilhadas.
Caboclos de Omulu:
Arranca-Toco, Acuré, Aimbiré, Bugre, Guiné, Gira-Mundo, Iucatan, Jupuri, Uiratan, Alho-d’água, Pedra Branca, Pedra Preta, Laçador, Roxo, Grajaúna, Bacuí, Piraí, Suri, Serra Verde, Serra Negra, Tira-teima, Seta-Águias, Tibiriçá, Vira-Mundo, Ventania.
Caboclas de Iansã:
Bartira, Jussara, Jurema, Japotira, Maíra, Ivotice, Valquíria, Raio de Luz, Palina, Poti, Talina, Potira.
Caboclas de Iemanjá:
Diloé, Cabocla da Praia, Estrela d'Alva, Guaraciaba, Janaína, Jandira, Jacira, Jaci, Sete Ondas, Sol Nascente
Caboclas de Oxum:
Iracema, Imaiá Jaceguaia, Juruema, Juruena, Jupira, Jandaia, Araguaia, Estrela da Manhã, Tunué, Mirini, Suê. 
Caboclas de Nanã:
Assucena, Inaíra, Juçanã, Janira, Juraci, Jutira, Luana, Muraquitan, Sumarajé, Xista, Paraquassu. 
Divisão e Falanges
Na Umbanda, os Caboclos constituem uma falange e, como tal, penetram em todas as linhas, atuando em diversas vibrações. Entretanto, cada um deles tem uma vibração originária, que pode ser ou não aquela em que ele atua.
Antigamente existia a concepção de que todo Caboclo seria um Oxossi, ou seja, viria sob a vibração deste Orixá. Porém em nossa percepção, compreendemos que Caboclos diferentes, possuem Vibrações Originais Diferentes, também é preciso falar que existem os chamados cruzamentos vibratórios em que uma entidade de Ogum, por exemplo, podem trazer também as forças de outro orixá, como Ogum Yara que além das forças de Ogum, movimenta também as forças dos Orixás das águas, como Yemanjá, Oxum etc. Não há necessidade da Vibração do Caboclo-guia, coincidir com a do Orixá dono da coroa do médium: o guia pode ser, por exemplo, de Ogum, e atuar em um sensitivo que é filho de Oxossi; apenas neste caso, a entidade, embora sendo de Ogum, assimilará a vibração de Oxossi.

Vejamos alguns exemplos de Caboclos de Oxossi: Caboclo Sete Flechas, Caboclo Folha Seca, Caboclo Pena Vermelha, Cacique das Matas, Caboclo Cobra-coral, Cabocla Jurema, Cabocla Jacira, Caboclo Ventania, Caboclo Caçador e outros.
Na linha de Ogum temos: Ogum de Lê, Ogum Beira-mar, Ogum Matinata, Ogum Sete Ondas, Caboclo Biritan, Ogum Megê, Ogum Sete Espadas e mais uma plêiade de espíritos que vêm sob essa vibração.
Entre os caboclos de Xangô temos muitos caboclos famo­sos, como Caboclo das Sete Pedreiras, Caboclo Vira-mundo (que vem como Xangô ou Oxossi), Xangô Kaô, Caboclo Pedra Branca, Caboclo da Pedra Preta etc.
Para citar alguns da linha de Oxalá, que dificilmente baixam, temos Caboclo Ubiratan, Caboclo Girassol, Caboclo Ipojucan, Caboclo Guaracy e Caboclo Tupi. Esses caboclos, normalmente, vêm fazendo cruzamento vibratório com outros orixás, especialmente com Oxossi.Todas as entidades de Umbanda são importantes. Ainda que alguns se orgulhem de serem médiuns de caboclos renomados e tidos como chefes de falange, o que vemos é que quando estão no terreiro, os Caboclos tratam uns aos outros como iguais, mostrando que o que importa é o trabalho espiritual e, como em uma aldeia, tudo é feito em conjunto e com as ordens dos planos superiores.
Influência, ação e função na Umbanda
Os caboclos constituem o braço forte da Umbanda, muito utilizados nas sessões de cura através de ervas e simpatias, pois são profundos conhecedores das ervas medicinais e de suas propriedades espirituais, assim como suas propriedades terapêuticas para o tratamento de muitos males, desobsessões, solução de problemas psíquicos e materiais, repressão a espíritos malévolos, principalmente eguns, demandas materiais e espirituais, são grandes passistas e os resultados de seus trabalhos aparecem muito rapidamente.
      
                                                                                                 por Débora Caparica

quarta-feira, janeiro 28, 2015

CABOCLOS - Parte 01

                                                                                                             por Débora Caparica


A marca mais característica da Umbanda, religião surgida no final do século XIX e início do século XX é a manifestação de entidades, por meio da mediunidade de incorporação. Os primeiros espíritos a “baixar” nos terreiros de Umbanda foram os caboclos e pretos velhos, a seguir surgiram outras formas de apresentação como as crianças, conhecidas como erês. Essas três formas, crianças, caboclos e pretos velhos, são consideradas as principais, representando as três fases da vida – a criança, o adulto e o velho – mostrando a dialética da existência. Além disso, trazem valores arquetipais de pureza e alegria na criança, simplicidade e fortaleza no caboclo e a sabedoria e humildade dos pretos velhos, mostrando o caminho para a evolução espiritual.
Com a expansão da Umbanda, muitas outras entidades apareceram, como os baianos, boiadeiros entre outros, sem falar dos Exus. A Umbanda cresceu porque soube levar em seu círculo de sabedorias ensinamentos de outras religiões. Assim a Umbanda se acresceu de pontos cantados, orações, defumações, etc. Essa diversidade confirma a abrangência desse movimento espiritual que chama a todos e recebe seres encarnados e desencarnados, com vibrações de fraternidade e amizade sob a luz de Oxalá. Em nosso trabalho trataremos mais especificamente, das entidades conhecidas como Caboclos, invariavelmente presentes nos terreiros de Umbanda, praticando a caridade e cumprindo sua missão espiritual. A influência dos caboclos dentro da Umbanda é tão grande, que talvez não existisse Umbanda sem eles. Que todos os caboclos nos iluminem e nos guie rumo à paz maior.
Os Caboclos
A palavra caboclo vem do tupi kareuóka, que significa da cor de cobre, acobreado. Podendo também designar o mestiço de branco com índio ou mulato, tem na Umbanda significado diferente, são espíritos que se apresentam como índios. Muitos que hoje se apresentam nos terreiros foram pajés, velhos curandeiros ou magos, tanto que são utilizados em trabalhos de cura através de ervas, demandas espirituais, pois foram hábeis guerreiros. Acresce ainda, que sob a forma fluídica de um índio, se esconde muitas vezes um padre, um missionário, um pacificador indígena, um bandeirante ou um médico, cujas primeiras existências humanas, foram como silvícolas. Dada essa relação dos caboclos com os indígenas, e aproximando esse fato ao Orixá Oxossi, que na África é cultuado como Odé, o caçador, o Senhor das Florestas, conhecedor dos segredos das matas e dos animais que lá vivem. Os caboclos são entidades fortes e viris, com uma postura forte, de voz vibrante, que trazem as forças da natureza, manipulando essas energias para trabalhar nas questões de saúde, vitalidade e no corte de correntes espirituais negativas alguns tem dificuldade de se expressar em nossa língua, são sérios, mas gostam de festas e fartura, dançam muito e gostam de cantar.
Relação com os Orixás
Primeiramente o que é Orixá? O planeta em que vivemos e todos os mundos dos planos materiais se mantêm vivos através do equilíbrio entre as energias da natureza. A harmonia só é possível devido a um intrincado e imenso jogo energético entre os elementos químicos que constituem estes mundos e entre cada um dos seres vivos que habitam estes planetas. Um dado característico do exercício da religião de Umbanda é o uso, como fonte de trabalho, destas energias. Vivendo no planeta terra, o homem convive com leis desde sua origem e evolução, leis que mantém a vitalidade, a criação e a transformação, dados essenciais à vida como a vemos desenvolver-se a cada segundo. Sem essa harmonia energética o planeta entraria no caos. O fogo, o ar, a terra, e a água são os elementos primordiais que combinados, dão origem a tudo que nossos corpos físicos sentem, assim como também são constituintes destes corpos. Acreditamos que esses elementos e suas ramificações são comandados e trabalhados por Entidades Espirituais que vão desde os elementais até aos espíritos superiores que inspecionam, comandam e fornecem o fluido vital para o trabalho constante de criar, manter e transformar a dinâmica evolutiva da vida no planeta terra. A essas energias de alta força vibratória chamamos Orixás, usando um vocábulo de origem Yorubana. Na Umbanda são tidos como maiores responsáveis pelo equilíbrio da natureza. Os caboclos, profundos conhecedores das forças da natureza estão ligados aos Orixás através dessas energias das quais fazem uso para os trabalhos. Para quem vivencia o terreiro, que há anos luta as batalhas espirituais e já viu os caboclos vencendo as demandas, afastando entidades negativas, tratando doenças que a medicina muitas vezes não resolve e dando lições de simplicidade, humildade, coragem e persistência, traz uma sensação de alegria que enche o coração, renova o ânimo e nos dá a certeza de que estamos no caminho certo. É também do linguajar de caboclo, que não cai uma folha da jurema (da mata), sem ordem de Oxalá, ou seja, que tudo na vida tem motivo e que nossas ações são registradas na lei de causa-e-efeito, ou lei do karma. Mas isso não significa ficar passivo, esperando o pior acontecer. Os Caboclos também ensinam a termos coragem e a sermos guerreiros na vida, lutando pelo que é justo e bom para todos. No que é possível, os caboclos nos ajudam a entrar na macaia (a mata que simboliza a vida), a cortar os cipós do caminho (vencer as dificuldades) e, se preciso caçar os bichos do mato (vencer as interferências espirituais negativas). Essa postura é evidenciada em vários pontos. Na Umbanda a linha de Caboclo e a linha de Preto Velho, são as únicas fundamentalmente capacitadas, diante seu grau de evolução, a apresentar-se como mentores de um médium, ou seja, são as únicas entidades que podem responder diretamente ao (Orixá de Cabeça) de um médium, sem desequilibrar a vida disciplinar dele. Os caboclos estão ligados a um determinado Orixá, respondendo diretamente a ele, a não ser em casos especiais, onde se precise de um reajuste cármico, assim passando-se a agir uma entidade, que tem um cruzamento vibratório, como por exemplo, um Ogum Rompe Mato, que pode atuar por Oxossi se for preciso. Assim, se na ancestralidade de um caboclo está o elemento fogo, quem o rege é Xangô; e se está o elemento mineral, quem o rege é Oxum, etc. E sua linha de trabalhos espirituais atuará no campo do Orixá que está dando amparo divino à atuação dos espíritos que se apresentam com o seu nome simbólico.

sábado, novembro 22, 2014

Buscando Meu Orixá

Ele andava triste, por muito tempo buscava uma resposta para suas aflições religiosas. Temia que sua fé minasse a ponto de não mais bater cabeça… quando aconteceu este encontro. Em meio ao perfume das ervas queimando na brasa, ao som dos atabaques, penumbra iluminada por velas, ele ajoelha e desaba:
- Vovô, já não agüento mais…
– O que te aflige meu fio?
– Vô, eu amo os Orixás, não tenho dúvida. Mas passei por tantas desilusões, fui enganado por pessoas que se diziam mestres no culto aos Orixás, ostentando todo tipo de títulos e artefatos. Sei que de certa forma aprendi coisas, mas no fim sempre uma desilusão…
- Continue meu fio…
Em lágrimas ele recobra o fôlego e prossegue.
– Então meu velho, já deitei pro Santo, já assentei Orixás, já passei por muitos fundamentos quando eu cultuava o Orixá em outro segmento que não era Umbanda. Hoje não sei como fazer, de uns tempos pra cá começou meu Caboclo se manifestar, descobri que amo a Umbanda e este é meu caminho, o Caboclo disse que devo me fundamentar na Umbanda e devo assentar meus Orixás. Acontece que meus assentos foram confiscados pelo meu último Babalaô. Acho que meus Orixás estão bravos, estão me cobrando, tenho certeza!
- Meu fio, o que eles cobram?
– Não sei meu velho.
– Então vois zuncê vai pagar o que nem sabe que deve?
– Veja meu velho, como estou confuso. Acredito que preciso assentar meus Orixás para me acalmar. Como faço isso?
– Hehe…É meu fio, vois zuncê ta numa encruza mesmo! Intonce, aquiete seu coração, sinta este cheiro de ervas queimando e escuita com atenção o que este velho nego tem pra te fala…
– Meu velho, sou toda atenção, obrigado… – disse ele em prantos.
- Meu fio, os homens nessa terra tem uma necessidade constante de criar formas para expressar-se, neste caso, o nego vai se ater na religião. Por isso muitas são as formas de cultuar os Orixás, muitas mesmo, e é certo que muitas práticas, nem mesmo sendo tolerante às diferenças, é possível aceitar. Pois meu fio, quando o amor não for o caminho e o bom senso não for o limite, intonce muito problema vai acontecer. Sabe fio, esse velho conheceu os Orixás na antiga África, e lá era tudo muito diferente, simplesmente diferente, não me arriscaria a dizer que melhor, pois assim o nego negaria a evolução constante. Este contato da minha alma com essa luz que chamamos de Orixás mudou a existência do nego, e de tanto que amo e sinto-me bem, após minha passagem para o mundo espiritual, insisti para que Olorum me deixasse perto dos seus Orixás. Sou feliz por isso fio, porque nosso Criador me ouviu.
E foi assim que este velho aprendeu algumas coisas simples. Na carne este nego procurou muito os Orixás pela vida, por entre as coisas da Terra, minha Yá tinha ensinado que os Orixás estavam na Natureza, mas como eu não fugia à regra geral, entendia que essa natureza seria o plano físico da arvore, mata, água, fogo, hehe. Como que se eu tendo um pouco da água eu teria “aprisionado” o Orixá. Entendi já aqui no mundo espiritual fio que Orixá não está fora de nós, mas encontra-se dentro. Ele extrapola nossos poros e nos toma por inteiro quando entendemos e reconhecemos isso. Fio, Orixá é a essência de tudo o que você vê, escuta e sente, está muito além destes parcos sentidos humanos e muitíssimo além da nossa razão humana. Mesmo este velho tentando explicar Orixá, cometo um erro, pois sei meu fio, que Orixá não se explica, se sente. Mas como já disse, precisamos criar formas, então fio, que a sua forma seja a mais próxima do abstrato e do sutil, porque assim talvez esteja próximo do que seja Orixá.
Por isso meu fio não se apegue tanto às formas de como cultuam ou assentam os Orixás, principalmente quando lhe ensinam métodos que não encontra aceitação no seu coração. Os Orixás falam ao coração, intonce é ele que você deve escutar para saber como encontrará os Orixás. Se, por exemplo, você qué assentar um Orixá das matas, vá numa mata, sinta o cheiro das folhas, toque elas, converse com o Orixá, cante, dance, colha as folha, cipó, raízes, terra, vai pegando um pouquinho do que tem lá, porque isso simboliza o tal Orixá fragmentado na natureza, com isso monte um espaço onde colocará isso e lá você reza pro tal Orixá. Entendeu meu fio?
Ele soluçando e enxugando as lágrimas com a voz embargada responde:
- Meu velho, vovô querido, muito obrigado. Agora sinto o Orixá dentro de mim. Entendi sua mensagem e não sei como agradecer.
– Fio não tem de quê. Agora vai ao encontro de si mesmo para encontrar os Orixás. Seja feliz meu fio por entender que da essência só bebe aqueles que amam simplesmente por não saber explicar.
E sempre que irmanados os filhos deste plano estiverem, sem máscaras, sem receios, sem pretensões, lá, através do coração sincero de cada um, o Orixá se manifestará. Todos vocês são filhos de Orixá e adotados por todos os Orixás do Universo, somos filhos dos Pai e Mães Celestiais e nada existe sem a relação harmoniosa e contínua de todos Orixás num emaranhado perfeito. E se buscas o “teu” Orixá, então o encontra dentro de ti! Saravá!
E assim, com três estalos de dedo, o Velho sacudiu seu médium, retornando para sua Aruanda, uma sensação de paz profunda pairava no ambiente e o atabaque secou o couro, um silêncio se fez no ar e podia ouvir o crepitar do fogo nas velas, este silêncio eram os Orixás falando ao coração de cada um presente naquela Gira.

Por rodrigo queiroz

segunda-feira, junho 09, 2014

Incorporação - Programa Especial

 
Esse vídeo não só traz uma ótima amostra do que é a nossa religiosidade em diferentes áreas do Brasil como sua variedade. 
Traz também recordações de dois grandes amigos da Aldeia do Sultão presentes no vídeo.
Iya Sandra Epega e Pai Francelino de Xapanã.
Duas figuras importantes da nossa religiosidsade que nunca deixaram de ensinar os mais novos e respeitar os mais velhos.
Pioneiros no diálogo inter-religioso e ativistas incansáveis que levaram a religião afro à todos os cantos do Brasil sempre com muito orgulho.
Os dois infelizmente já nos deixaram mas ainda brilham nos nossos corações e na Aruanda.
Saravá.
 
 
 

domingo, setembro 08, 2013

Quotidiano Umbandista - Linha de Produção

 
É dia de uma das giras mais populares da Umbanda, há aqueles que a renegam e outros que só falam dela, a gira dos Exus, dos compadres, dos homens da encruzilhada e de suas companheiras de encruza, as Pombagiras.

Os trabalhos ainda não começaram, mas lá fora as pessoas lotam os bancos da assistência, vieram pedir, agradecer e observar essas entidades que tanto fazem sucesso, por seu comportamento, sua força e suas realizações.

Os trabalhos estão correndo normalmente, Ogum já abriu os caminhos e nada de ruim acontecerá, os Exus já estão em terra, fumam e bebem e se preparam para iniciar as consultas. Entre os freqüentadores estão alguns médiuns de outra casa, vieram especialmente para espiar. Um deles vai se consultar com um Exu, fala, ouve, e antes de ir embora toda a boa impressão que tivera do Exu cai por terra, o compadre lhe dá de beber, o médium já espera o sabor forte de pinga, mas se surpreende e se indigna ao perceber que o Exu bebe água quente. A bebida queimou sua garganta, mas não subiu para sua cabeça.

Na volta pra casa comenta revoltado com seus irmãos que jamais viu e não admite Exu que beba água, Exu bebe pinga, conhaque, whisky e de preferencia em grandes quantidades. - reclama o pobre médium.

Ora, penso eu, será que existe uma Maria só no mundo? E será que todas as Marias bebem café? Por que então todos os Exus devem ter o mesmo comportamento?

Não é todo Caboclo que grita, nem todo Preto-Velho é negro. Será que todas as entidades são iguais, mas com nomes diferentes?

Meu Axé a todos. Salve a Umbanda!                                      
                                                                                            Jornal Tambor - 06 / 07 / 2002

segunda-feira, abril 08, 2013

Quotidiano Umbandista - O Limite da Caridade


                Chega mais um dia de trabalho espiritual, os médiuns vão chegando e se arrumando, assim como a Mãe-de-Santo que já tem tudo pronto, todos tomam seus lugares e dá-se início a gira.

            Os Orixás chegam dançando, e dançando vão embora. Os Caboclos chegam dando seus gritos característicos, logo dão início a prática da caridade.

            Da assistência sai uma senhora, é sua primeira vez na casa, direciona-se ao Caboclo e conta o que lhe aflige, o Caboclo lhe receita um descarrego e ela logo se dispõe a fazê-lo. A senhora espera o fim da sessão e vai falar com a Mãe-de-Santo, que lhe indica o dia e horário para que o descarrego seja feito.

            No dia combinado e no horário também, a Mãe-de-Santo, um Cambone e um filho da casa aguardam por vinte minutos até a chegada da senhora que inclusive reclama do local onde parou o carro.

            O descarrego é preparado, usa-se vela, pólvora, pemba, todos ingredientes do próprio terreiro, a senhora nada trouxe, tudo é feito conforme determinou o Caboclo, encerrado tudo a senhora diz “Até logo” e sai, é daquelas que não vai mais voltar, não agradeceu, não pagou e nem mesmo irá lembrar do rosto do Caboclo que lhe ajudou quando seu martírio passar.

            “— O papel a mim confiado pelos Orixás foi feito, o dela, ela ainda irá descobrir”. Diz a Mãe-de-Santo vendo o espanto de seus médiuns perante a situação.

            Meu Axé a todos, Salve a Umbanda!                                        17 / 06 / 2002
 
 
O Jornal Tambor foi uma das publicações direcionadas à religiões afro-descendentes mais importantes no início dos anos 2000. Criado e idealizado pela Yalorixá Sandra Epega o jornal sempre pregou pelo diálogo inter-religioso, cultura de paz e sempre deu espaço para todos as tradições religiosas.
Nosso irmão e colaborador do blog, Thiago Sá foi colunista do jornal por quase três anos e sua coluna, Quotidiano Umbandista descrevia situações corriqueiras ao dia a dia dos templos umbandistas. Sempre descritas como ficção.
O blog Aldeia do Sultão acha pertinente trazer de volta alguns do textos publicados ao invés de deixa-los guardados num arquivo de computador ou numa gaveta.